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Agricultura

Giberela, um problema grave na cultura do trigo

Uma das doenças mais expressivas na cultura do trigo, a giberela diminui a produtividade na lavoura e contamina os grãos

Giovane Assoni - ESALQ-USP

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Uma das doenças mais expressivas na cultura do trigo, a giberela diminui a produtividade na lavoura e contamina os grãos com substâncias prejudiciais à saúde humana e animal. Ano após ano, a doença causada pelo fungo Gibberella zeae (Fusarium graminearum) vem se tornado cada vez mais frequente e tem preocupado agricultores do sul do País, principal região produtora do cereal.

A giberela no trigo dependente do clima para ocorrer, com temperaturas que ficam, geralmente, entre 24°C e 30°C, com alta umidade relativa do ar ou com chuvas em dias consecutivos (mínimo de 48h). Estas são as condições ideais para o seu desenvolvimento, potencializando o risco de epidemias.

Como identificar a giberela na cultura do trigo

Com condições climáticas adequadas, a giberela pode ocorrer na cultura do trigo a partir da fase do espigamento até a fase final de enchimento dos grãos.

Inicialmente, um dos sintomas típicos dessa doença e que facilitam a sua identificação em campo é o conhecido como “aristas arrepiadas”. Esse sintoma é caracterizado pelo desvio do sentido das aristas de espiguetas infectadas em relação as aristas de espiguetas sadias. Posteriormente, causa nas espiguetas a despigmentação, as quais adquirem coloração esbranquiçada ou cor de palha, que contrastam com o verde normal das espiguetas sadias.

Outro sintoma típico dessa doença, é o abortamento floral e a má formação dos grãos, os quais quando são infectados precocemente podem se tornar chochos, apresentar tamanho reduzido, aspecto enrugado, áspero e com coloração rósea (Figura 1).

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Figura 1: Grãos de trigo giberelados, apresentando sintomas típicos.

Danos causados pela giberela na cultura do trigo

Dois dos principais danos causados pela giberela é o abortamento floral e a má formação dos grãos. Ambos impactam diretamente na produtividade agrícola. Há estudos que apontam que a doença pode causar perdas médias superiores a 18% na produtividade da lavoura; no Brasil, no entanto, já foram registrados perdas superiores a 60% em áreas extremamente afetadas.

Além da diminuição da produtividade, o fungo responsável pela giberela em trigo contamina o grão com micotoxinas, substâncias altamente tóxicas aos humanos e aos animais.

Segundo informações da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecária), dentre as principais micotoxinas que contaminam os grãos de trigo destacam-se a deoxinivalenol (DON). A ingestão destas substâncias pode levar a morte de humanos e animais, ocasionando como sintomas vômitos, diarreia, anorexia, alterações hematológicas, distúrbios neurológicos, destruição da medula óssea e hemorragias generalizadas. Além da deoxinivalenol, o trigo também pode conter outras micotoxinas, tais como Zearalenona (ZEA), Ocratoxina A (OCRA) e Aflatoxinas (AFLA).

Como forma de proteger a saúde humana e animal dos efeitos nocivos das micotoxinas, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) exige análises laboratoriais de grãos e produtos derivados do trigo, estabelecendo limites máximos tolerados (LMT). A partir de 2019, a legislação brasileira passou a ser mais restritiva em relação a esses limites.

A Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do Trigo), em parceria com a Embrapa, no ano de 2018 lançou uma cartilha informativa como forma de orientar os produtores de trigo sobre os problemas das micotoxinas na cultura, bem como orientar sobre boas práticas agrícolas que visam controlar a giberela. Para mais informações acesse “Micotoxinas na Cultura do Trigo”.

Controle da Giberela no trigo

A giberela na cultura do trigo é uma doença de difícil controle e basicamente três estratégias devem ser empregadas de maneira integrada para um manejo eficiente: resistência genética, manejo cultural e controle químico.

1) Resistência genética: até o momento, nenhum material comercial de trigo confere resistência total em relação à giberela a ponto de ser dispensado o controle químico; porém, o produtor deve dar prioridade a materiais que conferem algum tipo de resistência, tais como sementes moderadamente resistentes e moderadamente suscetíveis.

2) Manejo Cultural: dentre essas medidas é recomendado o escalonamento de semeadura ou semear cultivares com ciclos distintos ao espigamento. O objetivo dessa prática é o escape de epidemia da doença, ou seja, que pelo menos parte da lavoura consiga “escapar” da giberela. O escape da doença ocorre quando a fase reprodutiva dos cereais não coincidem com as condições ambientais favoráveis ao patógeno. Mais informações sobre essa prática de manejo podem ser obtidas no vídeo produzido pela Embrapa Trigo “Estratégias para o escape da giberela”.

3) Controle químico: por fim, a utilização de fungicidas para o controle da giberela em trigo deve ser feita de maneira preventiva, ou seja, antes da ocorrência de condições ambientais favoráveis à infecção do patógeno. São recomendadas pelo menos duas aplicações, uma após o início da floração do trigo e antes da ocorrência de chuvas previstas no período de predisposição à infecção, e outra em um período máximo de 15 dias após a primeira aplicação, estando ainda as espigas verdes.

Segundo a Abitrigo, quando aplicados corretamente alguns fungicidas podem reduzir a intensidade da giberela em até 60%, contribuindo também para a diminuição do teor de contaminação por deoxinivalenol (DON).

A Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale, afirma que os fungicidas mais indicados para o controle da giberela em trigo são os produtos do grupo químico dos triazóis (epoxiconazol, propiconazol e tebuconazol), e também as misturas prontas de piraclostrobina + metconazol.

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